ERA NO TEMPO DOS TAMARINDEIROS
 

ERA NO TEMPO DOS TAMARINDEIROS

Estava eu com amigos de várias idades a desfrutar o domingo, tentando nos desforrar dos poucos dias de descanso, metendo a conversa em dia, a mugimbar sobre a beleza da nova vizinha, enquanto saboreavamos uma lambula, com bastante cebola, azeite e o picante fora do comum, fazendo lacrimejar e provocar as narinas até dos que se gabavam de comer gindungo desde a infância! Como acompanhante, mandioca e batata doce cozidas.

Estão ansiosos em saber o que bebíamos? Não digo. Já basta nós, fofoqueiros de ocasião!

Tarde amena. Os kotas do grupo, lembravam com nostalgia, os tempos em que se cantava com compromisso, os meninos a volta da figueira, os tempos em que no 1º de Maio, nos comíssios recebiam lições do bom socialismo. Lembravam dos almoços entre camaradas, de muito vermelho, preto e amarelo nas ruas e, de tudo mais que gravitava em torno de vários feriados Nacionais.

 

Feriados a parte e política arrumada para fórum próprio… mostrei aos kotas que eu também tenho lembranças, afinal também tive infância!

Não pude deixar de pensar nos meus primeiros anos de escolaridade, no meu Golfe, e de cacheche comecei a verbalizar algumas coisas daquele bom tempo em que os professores eram nossos primeiros pais. Nos surravam para crescermos com sabedoria. Hoje perderam a autoridade.

Lembrei-me então de algumas lições:

A Lebre e o Camaleão, que nos ensinava que adiantar não é chegar.

Da lição Muito Obrigado, áh!!! Era difícil não ser educado quando alguém nos fazia um bem, e sabíamos que nos transportes públicos devíamos ceder o acento aos mais velhos e grávidas.

Quem não se lembra do Grande Desafio, com lágrimas, percebo agora porque os putos já não jogam futebol a sério e o nosso Raimundo Neves diz que viu as últimas partidas de futebol, nos anos 80!

Quem não se lembra da lição a Comuna, onde o nosso querido professor não percebia que estávamos a ler “CUACUACO”, ao invés de Cacuaco.

O Velho e o Rapaz, grande lição para quem gosta de tirar conclusões apressadas. Que nos ensinava ainda que os mais velhos têm muita sabedoria e que devemos ser pacientes. “Anda”, dizia o velho insistentemente ao rapaz impaciente.

E Na Xitaca do Velho Cafuchi, qual a criança que não queria ter um corral com vários animais!

E o milagre da lição Já Chegamos Camarada! Estudar era mesmo um dever revolucionário. Quem sabia, ensinava. Quem aprendia fazia-o com vontade de pôr em prática.

Conhecíamos os nossos escritores, o Hino Nacional, estava na ponta da língua, sabíamos sem pestanejar a extensão territorial do nosso país e que a cima de tudo, orgulhavamos-nos por Angola ser um país grande e belo.

Quanta saudade daquele bom tempo!!!

Meu maior medo hoje, é se os miúdos da actualidade se esquecerem das suas lições, se não aprendem com prazer como nós.

E antes que me chamassem de saudosista, parei com as lembranças da minha Primária e continuei a mastigar as pinhas da lambula com bastante gindungo sem vergonha de lacrimejar!

 

JOSÉ OTCHINHELO

(18.07.2021)

 

Data de Emissão: 18-07-2022 às 10:00
Género(s): Crônica
 
SABES QUEM EU SOU?
 

CRÓNICA: SABES QUEM EU SOU?

O ex-oficial de que vos falarei hoje era uma espécie de “deus” lá no meu Golfe, na década de 90.

Mwata que era, fazia compras no JUMBO e na Loja dos Oficiais, aliás tinha a maior casa do bairro já com ar condicionado naquela altura e muita bufunfa, muito mais do que aquele kota que cozinhava feijão com notas de dólares e muito mais do que aquele que lavava o carro com água mineral!

Fazer uma ultrapassagem a viatura dele era um crime de “lesa pátria”. O homem seguia o outro automobilista, e não importava o local, e quem estivesse, ele esbofeteava-o como se fosse seu filho.

– Quem te mandou me ultrapassar?

Sempre que essa pergunta era ouvida, já sabíamos que algum adulto seria galhetado e para nós crianças, sem a maldade dos adultos, era um deleite ver um kota levar como uma de nós.

Só depois de adulto é que percebi que aquilo que o tal ex-oficial fazia era uma forma de violência contra a dignidade daqueles adultos.

Não é que o kota se arranjou mbora um kizango daqueles bem grande no serviço! Perdeu a patente, o cargo e o emprego.

Os anos passaram como cometa, ele deixou de ser uma ameaça para os automobilistas, até as crianças do bairro perderam o medo. O homem tornou-se num lobo velho e solitário, a matilha o abandonou.

Não sei se eram as lembranças da boa vida, ou a dor de tudo que perdeu, bens, prestígio e amigos, o kota apanhou três tromboses de rajada. Não resistiu, faleceu sozinho, sem a mulher, sem os filhos e sem amigos. Morreu como nós, pobre e mortal.

A vizinhança fez o  óbito.

Era mesmo óbito de verdade, não é esses óbitos de agora de se coçar.

No dia do enterro, foram apenas alguns vizinhos e o cão, que também, nunca o abandonou.

A cerimónia foi rápida. Silêncio sinistro num dia e local como aquele (nós africanos somos barulhentos nessas ocasiões). Um acto triste, não devido à morte, mas, pelo silêncio ruidoso. Não havia ninguém para chorar aquele corpo. Um enterro e uma pessoa que seriam esquecidos, sem choro, nem lamentações.

O enterro talvez tenha sido um último gesto de misercórdia da vizinhaça que durante anos, sofreu às mãos daquele indivíduo.

A cerimónia fúnebre foi brevíssima, Mais triste ainda foi chegar à casa do óbito e não ter ninguém para cumprimentar, nem viúva, nem órfãos, ninguém.

 Quando olhei naquele sujeito pedrificado na morte, não pude deixar de, naqueles instantes, reflectir na existência humana.

A vaidade, a petolância, o rebaixar o próximo, enfim, pensar que se é mais pessoa que a outra por causa da beleza, nível de escolaridade ou bens materiais é cada vez mais comum nos dias que correm.

Mas, essa atitude de inferiorizar o semelhante é como tentar guardar água na peneira, já que somos pó, e nada levaremos deste mundo!

 

Texto: José Otchinhelo

Locução: Ana Moçambique 

 (02.04.2022)

 

Data de Emissão: 02-04-2022 às 10:00
Género(s): Crônica
 
PARTICIPANTES
TURISMO INTERNO
 

TURISMO INTERNO

Depois de mais de 500 dias sem férias, decidi revisitar o interior do nosso país.

Não pretendo traçar um roteiro das minhas viagens, nem fazer uma espécie de diário de bordo.

No entanto, os últimos VINTE dias foram de verdadeiras expedições, não do tipo COLOMBO ou DIOGO CÃO, mas foram tão ricas, que era possível ver a lua e as estrelas sorrirem, as árvores a acenarem para mim, os rios levarem a minha gratidão ao mar.

Mas, toda essa beleza natural, deixou-me com sabor agri-doce na alma.

Se por um lado, fui tomado pelo êxtase provocado por aqueles lugares divinos, autenticos paraísos no nosso país e, confesso que, tive mesmo a senssação, de que, Adão e Eva teriam vivido nesses lugares antes de chegarem junto dos rios Tigre e Eufrates, por outro lado, a tristeza de ver autenticas fontes de arrecadação de receitas, sem ninguém para explorar, deixou-me com o coração enferrujado.

Ver tantas grutas, cascatas, rios, montanhas e uma paisagem que se confunde com um cenário de filme paradisíaco, nas profundezas do interior de Angola, me fez lembrar do lema: “A VIDA FAZ-SE NOS MUNICÍPIOS” não apenas nas cidades.

Malange, Uíge, Bié, Cuanzas Norte e Sul, Lundas Norte e Sul, Huambo, Huíla, Zaire e Cuando Cubango, têm pontos turísticos que fazem chorar de alegria e espanto os visitantes! É muita beleza a ser desperdiçada!

Onde andam os empresários que não conseguem ver nesses lugares, verdadeiras fontes de receitas?

A natureza já nos deu tudo, bem planeado, podem se fazer coisas maravihosas sem agredir o ambiente ou descaracterizar as aldeias e tornar esses lugares rentáveis.

Será a doença do imediatismo o nosso problema? Será que as agências de turismo não podem criar pacotes para visitas a esses lugares e deixarem uma parte das receitas para aquelas comunidades?

Pela primeira vez, percebi que, temos água e morremos de cede, temos comida e morremos de fome, temos calçados e andamos descalços, temos roupas e, não preciso dizer o resto!

O órgão de tutela só precisa encontrar pessoas com esmose, com ideias férteis para trasnsformar as nossas belezas naturais em riquezas para o PIB, e nem precisam ser funcionários do Ministério.

Que tal investir as verbas que se dão aos assessores nessas pessoas que pensam! Como diz um amigo meu, “pessoas com a fiosofia chinesa”, criativas, e que, trabalham sem olhar para ao relógio!

 Tal como todas as cascatas que visitei do Norte ao Sul de Angola, o turismo é uma fonte inesgotável de rendimentos que seriam úteis para as populações que vivem ao lado desses emprendimentos da natureza, para empresários e como já referi para o Estado.

Depois de muitos anos, não pude deixar de me lembrar da lição da 4ª Classe: ANGOLA É UM PAÍS RICO E BELO, e é mesmo! Bem executado, o turísmo pode ser a segunda maior fonte de receitas do Estado.

Podem crer que O que vi me absolveu. Nunca mais serei o mesmo, até os vários modelos e materiais usados para a construção das suas casas são imprecionantes.

O sorriso e as formas das montanhas que noite e dia beijam o céu, encantam qualquer mortal.

A felicidade estampada nos rostos dos aldeões, mesmo com pouco, materialmente, fizeram-me pensar no conceito de “prioridade”. Como eles conseguem?

Não posso deixar de referir que não vi crianças pedintes e, os idosos são acolhidos pela comunidade.

Lugares assim, nos dão verdadeiras lições sobre partilha, sobre colocar-se na pele do outro, sobre caminhar juntos, sobre amor, sobre humanidade!

JOSÉ OTCHINHELO

  (16.11.2021)

 

Data de Emissão: 16-11-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
OUTRA MAKA MAIS!
 

CRÓNICA: OUTRA MAKA MAIS!

Dona Fefa, era uma mulher muito respeitada no meu Golfe, na minha infância.

Para todos era o melhor exemplo de mulher e, o lar dela, era daqueles que, estava sempre a ser elogiado.

Nos seus kizangos e outros makongos, esposas e maridos diziam “vê ainda como é que outros vivem”. – uma clara referência ao casal Fefa e Pedro.

As vezes iam mais longe:

– se comporta ainda como a mana Fefa!

– você tamb+em se comporta ainda como o man Pedrito.

Em alguns casos depois desse tipo de comparação, o barulho aumentava, panelas voavam e vizinhos tinham que apaziguar. Noutros casos, o que lhe compararam ficava só já envergonhado e, saia. Fingia que está a ir procurar os amigos mas afinal ia mbora se encher de quimbombo para tentar esquecer a comparação que doia como se lhe tivessem atirado uma kipedra das costas.

Para dar mais raiva em alguns casais, a Fefa e o marido, nem frequentavam nenhuma igreja, dando uma verdadeira lição de que essa coisa de igreja nada tem a ver com comportamento das pessoas, quem é educado é mesmo, não precisa ser adestrado.

Essa tranquilidade no lar da dona Fefa, fez dela conselheira de jovens e mais velhas sobre a vida conjugal. Havia mesmo uma verdadeira rumaria a sua casa de madeira, de dois quartos, sala e um quintal vasto com arvores frutíferas como maça da índia, figueira, mamoeiro e mangueira que davam sombra suficiente para as que esperavam a sua vez de receber os bons conselhos!

Mas dizia, a dona Fefa era uma mulher de trato fácil, elegante e já naquela altura, comandante de uma Esquadra de polícia, no bairro Popular.

Os dias, os meses, os anos foram passando até que uma mulher chega à Esquadra com a cara amarrotada, a sangrar.

Não sei se era por ser a Comandante, ou por ser mulher, tão logo a senhora disse que se tratava de um caso de violência doméstica, a comandante Fefa mandou longo uma patrulha a busca do marido da vítima.

Já na Esquadra, quando a comandante foi ver o agressor, apanhou um susto e começou a chorar torrencial e amargamente. Chorou sem parar por quase UMA hora. Ninguém a conseguia consolar, muito menos entender o que estava a acontecer!

Quando finalmente se acalmou, levantou-se e foi ao seu gabinete sem dizer nada.

O kota Pedro, estava parece é cão que estão a lhe morder nas carraças.

– me tiram daqui, aquela senhora vai me matar.

– qual lá vai te matar, na hora que bateste a tua mulher não pensaste na dor dela. – respondeu um oficial.

– faxavor me tirem só daqui enquanto ela não voltou.

Desta vez, os polícias lhe responderam com silêncio ensurdecedor.

Minutos depois, a comandante regressou sem a farda. Os efectivos mais uma vez ficaram com os neurónios em turbulência, em silêncio se perguntavam se a comandante é bipolar.

“Eu também tenho uma queixa contra esse homem” – explodiu a comandante, enquanto os colegas tentavam compreender toda aquela cena.

“Esse senhor é meu marido e há mais de QUATRO anos que me espanca e viola. Todos esses anos sofri calada, chega, chega Pedro. Acabou, nunca mais vais me tocar”.

A queixosa quando ouviu que afinal o marido tinha outra mulher e que não trabalhava com um ministro para justificar as suas ausências, e que, a casada afinal era a comandante, se mijou mesmo aí de tanto medo!

Coitada não sabia se aguentava a dor da surra, ou da tamanha traição do kota Pedro, ou se, aguentava a dor de saber que foi mbora se entregar na dona do marido!

No momento de falar da surra, começou a gaguejar, a se enrolar, sem saber bem o que dizer. Não há dúvidas que os seus reflexos estavam abalados! Mas, lá conseguiu formalizar a queixa, embora a comandante em nenhum momento se referiu a trição do Pedro. Parece que há dores que doem mais!

Quando a comandante perguntou quantos filhos têm e, ha quanto tempo estavam juntos, ela não deu rodeios.

– temos dois casais de gémeos e vivemos há quatro anos.

Antes mesmo dela terminar a frase a comandante desmaiou.

Outra maka mais!

É caso para se dizer que, quem está debaixo da árvore, ouve melhor o canto dos passaros!

 

JOSÉ OTCHINHELO

  (24.10.2021) 

 

Data de Emissão: 24-10-2021 às 00:00
Género(s): Crônica
 
VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA
 

CRÓNICA: VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA

O mote da crónica de hoje, apesar da cambalhota mais à frente, é a conversa que ouvi sem querer, mas que me deixou sob alerta, em função do conteúdo e, da forma áspera como era vomitada e, audível à UM Quilómetro.

Tratavam-se de DUAS zungueiras, uma delas, parecia ser a mãe do zongue, a dar instruções à outra que ouvia de forma passiva como uma criança na creche a ouvir uma estória.

A mulher que verbalizava com muitos gestos, que chegavam a chamar a atenção dos transeuntes, explodiu os meus ouvidos com a frase: “pode lhe matar. Dizem que as pessoas não dormem, é mentira, vais dormir a vontade…”.

Depois dessa faísca, senti um zumbido de alejar os ouvidos. Algumas pessoas abrandaram a marcha, outras tentaram aproxirma-se das DUAS zungueiras, pareciam querer dizer alguma coisa, mas ninguém teve coragem de parar e, questionar sobre aquelas palavras, que deixaram cincentas as nossas vidas!

Aquelas pessoas talvez estivessem apenas apressadas! Talvez fizessem apologia, de que, cada um sabe de si, ou que elas mesmas, enquanto personagens dessa vida, também estivessem a ir a busca do pão de cada dia como aquelas duas mulheres, e por isso, tinham as suas prioridades.

Mas, confesso que, até hoje, aquela frase me tira o sono. Quanto mais penso nela, mais fico intrigado. Teria alguma coisa que ver com bruxaria? Seria um conselho para a outra vingar-se de alguém? Seria para meter o marido ou um filho na mayombola?

Uma coisa é certa, a forma fria, calculista e convicta como aquela zungueira domesticava a outra para violência, fez-me pensar no valor que damos hoje a vida.

Ainda que a zungueira tivesse motivos legítimos, não posso deixar de pensar na frase “violência gera violência” e, nos zungueiros das redes sociais, que, inundam esses espaços mediáticos com imagens mórbidas. Dito de outra forma, armazenam e partilham imagens de pessoas a serem mortas a pedradas, facadas ou em chmas, enfim! Imagens degradantes sobre a dignidade da vida humana.

Em muitos casos, a partilha desse tipo de imagens é feita como se de um fait diver se tratasse. Quando são vídeos, vemos pessoas a filmarem num ambiente descontraido, algumas riem, outras fingem estar muito sentidas e, ainda outras, o que é mais grave, apoiam o assassinato em asta pública, sejam eles supostos ladrões ou alegados feiticeiros.

Noutros quintais, nos longes da Europa e ocidente em geral, imagens com esse cunho são imediatamente bloqueadas por algoritmos criados para o efeito, ou mesmos por quem gere essas redes redes sociais. No entanto, por cá, parece que impera a selva, ninguém faz absolutamente nada para impedir a proliferação desse tipo de imagens que não acrescenta nada a saúde mental de quem tem prazer em arquivar e partihar imagens sobre sangue e morte humana.

Por isso, tenho quase certeza que essas imagens influenciam negativamente no comportamento das pessoas.

Que me desmintam os psicólogos e psiquiátras, se essas imagens não tormam o ser humano insencível a violência e a morte; se essas imagens não potenciam o lado animal do ser humano; Se essas imagens não tiram o peso de consciência quando se comete uma brutalidade contra uma pessoa, que esses profissionais me desmitam!

Esse siêncio, forçado ou não, é penoso para sociedade, especialmente para a adolescentes e jovens que estão ainda em fase de formação da personalidade, que podem ter já as mentes atrofiadas para a maldade, por culpa do silêncio dos adultos em relação as imagens móbidas que passeiam livremente e, cada vez mais, nas redes sociais.

Como se não bastasse, nesses casos, nunca se fala do direito a imagem consagrado na Constituição da República, que não discrimina ladrões, de bons cidadãos e, mortos, de vivos.

Portanto, o sentimento cerescente de realização da justiça por mãos próprias, pode estar a ser alimentado por essas imagens de violênncia gratuita que proliferam nas redes sociais.

Termino com essa inquietação: as autoridades devem esperar por ordens superiores para varrer esse tipo de imagens nas redes sociais?

 

JOSÉ OTCHINHELO

(28.10.2021)   

 

 

Data de Emissão: 10-10-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
 O CAPITÃO DAS FAPLA
 

 O CAPITÃO DAS FAPLA

 

O capitão das FAPLA (assim tratado), foi uma figura da minha infância, que provocou muitos diálogos, muitas teórias de conspiração, muitas dúvidas. No entanto, teve uma vida relampago, já saberão porque!.

O capitão das FAPLA era respeitado, não só pela patente que ostentava, como, também, pelo facto de, na altura, ter sido logístico de um dos quarteis situado aqui em Luanda. Quem é do meu tempo sabe bem o poder que as latarias tinham nos anos 80 e 90!

Mulato, de corpolência invejável, simpático, sempre bem disposto e pronto a ajudar, o capitão das FAPLA era daquelas pessoas que todo o mundo queria tê-lo por perto.

No bairro, os jovens faziam fila à porta da sua casa, todos queriam trabalhar como logístico, já que, na altura, era um dos TRÊS vizinhos que tinha carro, ou seja, a rapaziada em idade militar tinha uma dupla intenção: por um lado, não fazer  tropa no Cuito Kwanavale, onde a quitota estava quente e, por outro lado, se fossem logísticos cá, como diz o nosso Tomé Armando, teriam muita tatita com a venda das latarias.

Mas, voltemos ao nosso capitão.

Infelizmente o mesmo descobriu tarde o valor da amizade e do respeito.

O capitão das FAPLA deixou a vaidade lhe subir a cabeça, perdeu o medo e começou a fazer um jogo perigoso com as latas de conserva.

É caso para se dizer que, as vezes alguém se aproxima de mais do precipício, sem se preocupar com a profundidade e nem com o sítio onde coloca os pés!

Ainda que as latarias lhe dessem um poder simbólico no bairro, era importante que o nosso capitão não perdesse de vista os direitos alheios.

Dúvidas ao avesso, as latarias que gamava do quartel, não eram certificado de impunidade perante os direitos dos outros, mas o nosso capitão preferiu caminhar de olhos vendados no cume da vida.

Que a tentação nos bate a porta todos os dias, isso é verdade. Mas, deixar-se mover pela carne enfraquecida pelo que os olhos vêm, é um erro que nem um recruta deve cometer!

O capitão das FAPLA foi apanhado em casa de um jovem, que estava casado há QUATRO meses, a ngombelar a esposa deste.

O coitado do jovem do Libolo, trancou a porta, chamou os vizinhos e mostrou a sujeira do capitão, para o espanto da comunidade que nutria um grande respeito pelo madié das latarias.

Com uma tranquilidade e calma incomuns para a situação, o jovem pediu que o ngombire saisse. Já no quintal, o jovem disse ao capitão que o mesmo só teria TRÊS dias. Foi ao quarto, fez a mala, tinha de ir de emergência ao seu Kwanza – Sul.

Os homens de sangue quente, queriam já que o jovem desse umas baçulas no fingido do logístico. Mas, o mesmo manteve-se sempre calmo e sereno.

O capitão tentou balbuciar algumas palavras que saiam de forma tão envergonhadas, que ninguém percebia, parecia tentar justificar o injustificável perante os escarros da multidão!

Já com a mala na mão, o coitado do jovem voltou a advertir ao capitão: “tens TRÊS dias” e saiu sem falar com mais ninguém.

Todos ficaram atónitos, alguns tentaram pedir explicações, mas o bom jovem nada mais disse, partiu em silêncio para o Libolo.

Naquela noite, um desarranjo intestinal tomou conta do capitão, que não conseguiu sair de casa de manhã para ir trabalhar. Os líquidos malcheirosos saiam-lhe como se fosse água de chafariz novo.

A desenteria durou os precisos TRÊS dias que o jovem do Libolo profetizou. Foi também o dia que ele regressou. A casa do logístico estava apinhada de gente. Gente que ia mostrar solidariedade; gente que ia dar palpites sobre uma medicação eficaz e, até, aquela gente que ia para indicar um bom quimbanda! Epáh, era gente para pau de toda obra em matéria de cura da diarrumba!

Todos esforços não valeram para nada. Até hoje, não sei o que o jovem do Libolo fez, para desgraçar o FAPLA com uma diarreia de TRÊS dias, sem sequer lhe dar tempo de sair da casa de banho!

Se pensam que era tudo, desenganem-se. Tão logo foi declarada a morte, na rua, o bom jovem rematou: “quem também dormiu com a minha mulher, vai seguir o capitão”!

Vários mais velhos começaram a chorar as escondidas, algumas mães de jovens bem compotados foram pedir perdão ao miúdo do Libolo, e segredos muito bem guardados foram reveladas!

Os que não quiseram confessar, correram à igreja da Muxima em busca de protecção; outros foram aos quimbandas para um “banho” contra diarreia; e ainda outros, os finos, foram fazer queixa a polícia que, prontamente, lavou as mãos e disse que não se mete em makas de michordias. Era dizumba grande!

O bairro ficou vazio, durante alguns meses, jovens e senhores evaporaram como se fosse dia de rusga! Aquele miúdo do Libolo meteu o bairro inçarsado.

A partir daquele dia, com pouca idade, percebi que, o que é do outro não é meu, e o que é de todos também não é meu!

JOSÉ OTCHINHELO

 (05.10.2021)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Data de Emissão: 05-10-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
A CORRIDA PELA CAMANGA DO SÉCULO XXI

A CORRIDA PELA CAMANGA DO SÉCULO XXI

 

A corrida pelo ouro, produziu fenómenos sociais, inspirou filmes, enriqueceu e empobreceu milhares de pessoas nas realidades americana e brasileira.

Entretanto, mesmo tendo esse minério, não há registo de uma tal “grande corrida” pelo ouro, entre nós! Talvez apenas uns poucos angolanos conhecem bem bem, onde se encontram as tais jazidas, e por isso, se tombolam entre eles, sem mexer as águas como bagres que se confundem com o fundo dos rios, por isso, nunca vistos.

Se é para correr atrás, nós gostamos mbora de coisas brilhantes, quer seja de dia, quer seja de noite. Portantoo, quem está já a pensar nos coitados dos pirilampos, que nem sei aonde foram parar, é melhor esquecer, gostamos mesmo de outra coisa que brilha, a camanga.

Mas, também essa tal camanga, nunca foi para todos, muitos que nos anos 80 e 90, correreram para as terras de Samayonga em busca dessa pedra preciosa, fizeram muitos sacrifícios, alguns foram mesmo engolidos pelos próprios buracos que cavavam, outros passaram fome, sede e sol, cavaram, cavaram, e continuaram a cavar, mas nunca tiveram jabaculé de verdade!

Os que conseguiram as tais kipedras que lhes fez ficar ricos, a maioria deles hoje em dia, estão mesmo só já a chupar o dedo das lembranças de quando “dinheiro era capim”. Os carros, as casas, as damas e outros mambos de valor que acumularam com os dinheiros dos diamantes, evaporaram, tipo mbora é dinheiro roubado.

Epáh, as Lundas têm poder! Quem ainda está rico com o dinheiro dos diamantes dos anos 80 e 90, é Homem! Respeito!

Mas não é dessa camanga que vos quero falar. Quero falar-vos da camanga do Século XXI… a corrida pelos diplomas universitários.

Muitos patrícios parecem animais esfomeados atrás de um diploma universitário. Quando se acabou com o bacharelato, vi gente a chorar amargamente nas casas de banho das instituições onde trabalham.

Essa busca insaciável pelos diplomas, deu a falça ideia a muitos jovens e não só, que basta ter o tal documento, que em muitos casos, se tornou maldito, para se ter um emprego ou boa remuneração!

De qualquer modo, essa corrida pelos diplomas, fez parir TRÊS fenómenos:

O primeiro, o surgimemto de todo tipo de instituições de ensino superior. No virar de cada esquina, no beco (construidas de bloco, de chapas, com vários andares ou um quarto e sala), com um quadro docente formado pelo pai, filhos, esposa e até o cão lá de casa. Enfim! O que se assite hoje, é a institucionalização do “CANAL ou KIKOLO” no ensino superior, onde a venda de fasciculos parece ser mais importante do que a construção de conhecimentos.

O segundo fenómeno, é a péssima qualidade de quadros formados. Vivemos uma ilusão de números, sobre a formação ao nível do ensino superior, não é em vão que muitos kotas nos dão mixoxo, nos olham de lado e dizem que com a 4ª Classe deles, escreviam e liam bem!

Eu próprio fui vítima desses licenciados que vêm o diploma universitário como verdadeira camanga. Quando o meu computador simplesmente apagou TRÊS desses tais transpiraram e xixilaram bué sem me resolverem o problema, antes que os nervos me subissem a cabeça, fui ao mercado dos Congoleses, em menos de TRINTA minutos, o computador tinha ressuscitado com todos os arquivos intactos. Afinal, aqueles engenheiros estudaram só bué para quê? O mesmo se pode dizer de outras áreas profissionais, e quando o assunto é saúde, o paciente não para de fazer orações porque nunca se sabe, se o tal, ao invéz de estudar a sério, era mbora um desbundeiro!

Não precisam fazer chover canivetes porque não há aqui generalizações, nem estou preocupado se a carapuça serviu.

Mas, se um dia a PGR fizer uma rusga nos Repositórios das universidades a procura de plágios, muitos estudantes, professores e reitores não vão apanhar sono por muitos dias. Ou seja, precisamos olhar criticamente para a produção científica ao nível das universidades, só assim, esses indivíduos saídos das universidades, poderão ser capazes de dar soluções as chagas sociais do nosso tempo.

Tenho fé que um dia o meu sonho de criança venha a se realizar, que os funcionários ganhem pelas competências e não pelo diploma.

No meu Golfe diriam é “falha grande”, um incopetente, as vezes até sem conhecimentos básicos ter o mesmo salário que o competente só porque está na função pública e com um diploma!

Portanto, no fim das contas, temos só bué de diplomas quase para nada, essa corrida pela camanga do Século XXI, é mesmo tipo a dos diamantes, ter um diploma hoje, não é sinónimo de desenvolvimento pessoal e social!

O tereciro fenómeno da proliferação das universidades fica para uma próxima crónica.

Mas, uma coisa é certa, essa apetência pelos diplomas só para subir o salário, está a custar mais caro ao Executivo e as famílias!

JOSÉ OTCHINHELO

  (14.09.2021) 

Data de Emissão: 14-09-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
IMAGINEM!!!
 

IMAGINEM!!!

    Estava a ouvir as músicas do lendário Jonh Lenon, quando pela milésima vez, ouvi o hino “Imaginen”: Um apelo a paz, um apelo a diversidade, um apelo a união na diferença!

    Como papel e caneta fazer parte dos meus assessórios obrigatórios, logo fluiram as ideias, pensei com os meus botões nessa imblemática música e… imaginem comigo!

    Imaginem se todas as pessoas com deficiência podessem frequentar qualquer escola a todos os níveis!

    Imaginem se todas as escolas tivessem merenda escolar!

    Imaginem se todos os jovens fossem bons estudantes!

    Imaginem se todos os pais, DUAS vezes ao mês fossem a escola dos filhos!

    Imaginem se não houvesse bullyng nas escolas!

    Imaginem se todos os alunos recebessem os certificados a tempo!

    Imaginem se os manuais não fossem vendidos na zunga!

    Imagiinem se todos os directores de escola fossem licenciados em pedagogia ou Educação!

    Imaginem se todos os pais exigissem qualidade de ensino!

    Imaginem se os castigos na escola fossem dados com objectivos pedagógicos!

    Imaginem se todos os alunos soubessem cantar o Hino Nacional!

    Imaginem se os colégios não estivessem obsecados com os lucros!

    Imaginem se nas cantinas das escolas só vendessem alimentos sadáveis!

    Imaginem se o ensino fosse para vida, e não para a prova!

    Imaginem se os professores ganhassem melhor que os funcionários da AGT e tivessem só um emprego!

    Imaginem se as tias da limpeza das escolas ganhassem bem!

    Imaginem se os seguranças das escolas não consumissem bebidas alcoólicas!

    Imaginem se todos os alunos não fizessem cábulas!

    Imaginem se todas as escolas tivessem semanas científica!

    Imaginem se todos os doutores em Educação escrevessem livros para nossa realidade!

    Imaginem se todos os responsáveis pela educação imaginassem essas coisas…

 

Talvez os funcionários fossem mais produtivos e menos grudados nas redes sociais em horário de trabalho!

Talvez baixássemos o números de pacientes de doenças diarreicas, paludismo e outras doenças preveníveis!

Talvez tivessemos menos jovens envolvidos em bebedeiras!

Talvez tivessemos menos casos de fuga a paternidade!

Talvez tivessemos menos ociosidade e delinquência!

Talvez fossemos mais humildes!

Talvez fossemos todos bons cidadãos!

 

Se acreditarmos na educação, talvez… tudo isso seja uma realidade!

 

Investir na educação, é investir no Homem, é investir no desenvovimento, é investir no bem-estar das gerações mais novas!

E como Agostinho Neto, eu também acredito que depois “do drama intenso de uma vida imensa e útil, resulte a certeza” de uma “sagrada esperança” de que ainda vamos a tempo de corrigir o que está mal!

 

JOSÉ OTCHINHELO

  (05.09.2021)

Data de Emissão: 05-09-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
PALAVRAS
 

PALAVRAS

 

Que as palavras têm poder, isso já toda a gente sabe!

Mas, existem palavras tão secas, tão quentes, tão avessas, tão traiçoeiras que raramente quem as vomita consegue imaginar o seu verdadeiro poder.

Sem querer ser assuntoso, senti que esta semana, esse tipo de palavras me perseguia como num filme de terror. Palavras como essas são como lavas de vulcão, destroem tudo a sua volta.

Em dias assim, apetece-me ser etc, economizar nas explicações, não me importar em desconstruir o duplo sentido das frases ou das palavras, apesar da aflição que elas me podem provocar.

Infelizmente mesmo com os neróneos a arder ao ouvir essas palavras, não posso deixar de registar nessas breves linhas as várias novelas que têm estado a se desenrolar na nossa sociedade, e que, expressam bem esse meu desagrado por essas palavras tão amargas, que só rivalizam com o porgante da minha infância.

Acusações, contra-acusações, teorias da conspiração, dissertações e teses que atiram para lama o bom nome de pessoas conhecidas, algumas com responsabilidade de Estado, são cada vez mais frequentes.

Basta ver o que se está a passar naquele órgão de comunicação social, onde revelações sobre alegado assédio sexual e outras malandragens de responsáveis, uns em serviço e outros já exonerados, aparecem em asta pública, atirando para o esgoto as imagens dessas figuras.

Infelizmente os supostos contra-ataques destes nas redes sociais, também não são nada modestos, não poupam nas palavras, são tão afiadas como as dos que fazem as tais acusações sujas.

Para a nossa desgraça, há também palavras em chamas em muitas casas. Nesses casos o lar-deoce-lar, há muito que se tornou num campo de batalha de palavras imjuriosas, esposa contra marido, mariso contra esposa, filhos contra pais, enfim, antes de ouvirmos as notícias sobre agressões físicas e assassinatos nesses espaços, que são mais dormitótios do que lares, já muitas palavras chamuscaram o carácter uns e outros, e segredos de quarto divulgados publicamente!

Hoje por hoje, a resposta na ponta da língua está de tal forma em prontidão, que fui surpreendido por um professor, ao ouvir da janela da sala de aula, enquanto eu percorria o corredor, que “nem todos os medicamentos entram pela boca outros entram pelo…” não vou repetir a tal palavra que, nem na cadeira de Anatomia se usa. Essa resposta caiu em mim como um raio.

O tal professor simplesmente enervou-se porque o aluno a quem estava a ser perguntado não sabia ou não queria responder a pergunta de como os supositórios são administrados, nem vale a pena pensarem que era numa faculdade, era uma aula de Química da 12ª Classe, numa instituição que é tida como modelo.

Como esse, há o caso do polícia que dizia ao taxista, com insistência como um leão a rugir “se eu tirar a farda vou te bater como se fosses meu filho”! Toda essa agressividade verbal só por que o taxista se recusava a entregar a carta de condução. Será que não havia outro método de abordagem?

Pior que o confronto pessoal, são aquelas pessoas que nas empresas, nas comunidades e nas famílias, de forma invisível e gerlmente debaixo do tapete, usam palavras para pregajar, caluniar, falar mal, atribuir más motivações contra aqueles com quem partilham o mesmo espaço social, claramente para apagar o faról desses ou mesmo para lhes mandar abaixo.

Pessoas que usam a língua para derrubar outras são tristes, o seu sorriso só existe porque os dentes fazem parte do esqueleto!

Mas, de palavras não é tudo.

Com esse cabucado de idade que tenho, vi palavras de bajulação num passado recente, e vejo a bajulação sufisticada nos dias actuais, que são tão nefastas para o desenvolvimento como as primeiras, mesmo nos casos em que o bajulado é um “simples” director de escola.

A questão é, que sociedade teremos daqui há alguns anos quando o senso de humor parece estar a desaparecer, quando até palavras de carinho parecem estar a evaporar nas relações amorosas? Ou seja, estamos numa sociedade onde as palavras se tornaram verdadeiras “AK 47”.

Será essa apenas uma coisidência colectiva? Não me peçam respostas, perguntem o que a escola e as igrejas têm feito para a moralização da sociedade.

Termino tal como comecei, as palavras têm poder, para o bem ou para o mal, o que me deixa mesmo preocupado é perceber que até crianças já têm respostas tão afiadas na ponta da língua!

E você, quantas palavras amorosas já usou hoje?

 

JOSÉ OTCHINHELO

 (27.09.2021)

 

Data de Emissão: 27-08-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
JOÃO PERNA
 

JOÃO PERNA

 

      Na minha infância, existiram figuras que ninguém sabia de onde vinham, mas que acabavam por ser membros da comunidade porque toda a gente as conhecia, um exemplo é a JOANA MALUCA.

 

      Entretanto, não é dessa mulher que vos vou falar, que tenho a impressão que não era a mesma, mas que existia em todos os bairros.

 

      Apresento-vos uma outra figura: JOÃO PERNA.

 

      Homem que apareceu no bairro Golfe, com TRINTA  e poucos anos de idade, na década de 90. Ninguém sabia de onde veio. Entretanto, era daquelas figuras com quem toda a gente se identificava ou pelo menos podia dizer “esse é o nosso João Perna”.

 

      O João era alto, dois metros, feio, olhos e nariz grandes e, a pele tinha a cor dos pneus. Destacava-se na sua estrutura física o pé direito que era de longe muito maior do que o esquerdo, por isso, nunca usou calçados de fábrica.

 

      Como num bairro de verdade, não faltaram as fofocas e os palpites para explicar tão estranho fenomeno, um pé de tamanho 40 e outro 44, os estudiosos do bairro, diziam que é um problema de má formação congénita, já os que frequentavam as casas de quimbandas, diziam que é “um feitiço que lhe lançaram porque gostava de roubar nas lavras” e como corria como chita, o tal bruxo lhe meteu aquela wanga de ter um pé maior que o outro para ficar pesado e não correr muito nas deslocações furtivas sempre que fosse surpreendido numa lavra a roubar mandioca ou milho.

 

      Não importa a razão de ter um pé maior que o outro, era o nosso João Perna!

 

      O João era também uma espécie de palhaço com quem adultos e principalmente crianças brincavam.

      Algumas maldades como atirar pedras nele e dar uma bofetada e fugir eram frequentes, algumas vezes sob o olhar sereno dos pais que não se incomodavam com a conduta dos filhos como se aquele corpo (do João Perna) fosse imune à dor. Dizia, as pessoas divirtiam-se à custa do pobre homem.

 

      Apesar disso, era o João Perna, que acarretava água para as casas onde houvesse óbito e outros ajuntamentos familiares. Era mesmo uma espécie de animal de carga do bairro.

 

      O mesmo João Perna, dava de comer a muitos animais domésticos (na minha adolescência a maioria das casas tinha currais ou animais domésticos). Em alguns casos porcos, patos e galinhas, conheciam melhor o João do que os próprios donos. Ou seja, era quase impossível vivermos sem o João Perna.

 

      João daqui, João dali, ajuda aqui, leva isso… era assim, até o dia que a dona Zefa, mulata, linda, de olhos azuis, que desconcentrava casados e solteiros apelou aos bons préstimos do nosso João, afinal o João Perna era propriedade de todos!

 

      O João regressou da casa da dona Zefa, limpo, com outra roupa e uma garrafa de wisky.

 

      O bairro inteiro fez silêncio. Todos olharam uns para os outros, incrédulos, com as gargantas secas, sabiam que o João fez mais do que simplesmente levar sacos a casa da dona Zefa.

 

      Logo o João? Murmuraram os caenches, os funcionários bancários, e outros que pensavam que tinham mais chances!

 

      Como conversa de bairro não pára, corre parece é atleta dopado, em poucos segundos, o pecado da dona Zefa já tinha chegado até ao Avô Kumbi. A vergonha foi tão grande que em menos de trinta minutos, estava um camião IFA à porta da casa da dona Zena. Ela mudou-se naquele mesmo dia e nunca mais ninguém a viu.

      Mas, confesso que naquele dia, vi crianças, jovens e adultos que se “cachicavam” na dona Zefa, mas, que nunca seguraram a mão dela, lamentar amargamente: Logo o maluco do João!

 

      Se por um lado, ficou o amargo de boca nos homens, por outro lado, as mulheres ficaram curiosas em saber o que o João fez para tirar o juizo da mulher mais fina do bairro. Essa curiosidade teve resposta NOVE meses depois, várias crianças no bairro começaram a nascer com um pé maior que o outro.

 

      O bairro entrou em convulção, os maridos foram tirar satisfações ao João, queriam mesmo dár-lhe uma tareia, mas sem sucesso, o João Perna deixou de morar no bairro. Desapareceu como apareceu no bairro, sem proveniência, sem rumo, sem destino e pior, sem deixar rasto como a dona Zefa. 

 

      Os maridos traídos e os jovens, futuros maridos, de tanta raiva não consumida, meteram fogo ao casebre do João Perna e juraram que se um dia vissem um homem ou um idoso com um pé maior que o outro, seria morto.

 

      Daí em diante, todos os homens passaram a andar com a cabeça baixa porque o rosto das pessoas já não lhes interessava, queriam mesmo era ver se tinham um pé maior que o outro!

 

      Por ter evaporado do bairro e anos depois não ser visto, muitos passaram a acreditar que o João Perna era um era cazumbi.

 

      Confesso que até hoje, ainda me sinto tentado a ver o tamanho dos pés dos idosos que se cruzam comigo!

 

 

 

      JOSÉ OTCHINHELO

 

       (21.08.2021)

 

 

Data de Emissão: 21-08-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
O ENFERMEIRO DO BAIRRO
 

O ENFERMEIRO DO BAIRRO

Pum, pum, pum (SOM DE ALGUÉM A BATER A PORTA).

– Belita, pergunta ainda para ver se é o teu marido – avançou o senhor Machado, que era vizinho da Belita e único enfermeiro no bairro Popular.

Só Machado entrava e saía às noites na casa da Belita, jovem bonita, que nessa altura o marido se encontrava a estudar na União Soviética há mais de QUATRO anos, até esse dia que regressou ao país sem avisar.

– Belita, lhe pergunta bem se é mesmo ele.

– Tá parece é ele.

Sô Machado estava encurralado, suava em todas as partes do corpo. Para piorar a casa só tinha uma entrada, a única janela dava para o quintal de um vizinho que tinha mais de DEZ cães, nada amistosos depois da MEIA NOITE.

Já com cólicas sô Machado insiste – esses gajos que estudam na União Soviética, mesmo que ficam engenheiro, também são FAPLA. Him, him, him, – começa a chorar.

– Belita, tô sentir parece num tô pisar bem no chão. Vou morré mesmo?

 

Belita encontra uma solução rápida. – Machado entra no tamborão.

– Ai, Belita! Tamborão tem água.

– Machado não seja teimoso, entra no tamborão.

– Belita, mô Deujo, eu num sei respirar “imbaixo” d’água.

– Machado, vou abrir a porta.

 Sem saída, só Machado entra no tamborão.

Belita abriu a porta, deu as boas-vindas que uma boa esposa dá ao marido depois de QUATRO anos longe um do outro e foram matar outras saudades no quarto.

Passadas DUAS horas, sô Machado na aflição, começou a miar para amante ir abrir a porta.

– Miau, miau, miau, miau-miau, miau-miau. – e Silêncio! Nem a Belita, nem o marido.

 

Aflito, ganha coragem abre a porta com muito cuidado para ninguém ouvir a respiração dele, e porque algumas pessoas já começavam a circular, corre e atira-se instintivamente naquela vala que faz a fronteira entre o Golfe e o Bairro Popular, aí junto as bombas da SONANGOL.

Minutos depois – Socorro, socorro, socorro. Bandidos, socorro – Sô Machado aos gritos e a correr em direcção a casa.     

– Man Machado é o que? (a mulher lhe tratava por man Machado). – “Vortas” ansim a “chera” mal parece dormiste na “fonsi”?

– Maria, assim que sai ontem as 22h para ir fazer banco no Maria Pia, vi só já a minha trás, três moços. Assustei já só, zuca, um ki pau da cabeça. Desmaiei já mesmo ai, naquela água da vala até acordar a pouco.

– Man Machado, estas a gozar comigo?

– Maria, vou te “mintir” porque?

– Então pessoa que lhe arrebentam com um ki pau na cabeça, não sangra?!

– Se calhar tenho emorragia interna.

A mulher lhe deu uma olhada, amarrou o pano, pegou nos produtos e foi vender no mercado do bairro Popular, com certeza de que o marido tinha apanhado uma bebedeira.

Mais de um ano depois, a Belita deu à luz uma criança muito parecida com as filhas do sô Machado. Sabem o que fez fez o marido?

 

JOSÉ OTCHINHELO

(03.08.2021)

 

Data de Emissão: 03-08-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
E AGORA, CHICO?
 

E AGORA, CHICO?

 

O Chico era um jovem que vivia no bairro Catambor que, para alguns moradores, é um condomínio de alta segurança e, para outros, Maianga. Não uma Maianga “qualquer”: Cassequel do Buraco, Calemba, Prenda –  não! É Maianga da cidade e, por isso, para muitos, o Catambor é cidade e pronto!

Continuando, o Chico era um bom rapaz. Crente de uma Igreja Evangélica desde antes mesmo de lhe caírem os dentes de leite. Tal como o seu Catambor, o Chico não era um menino qualquer. Era inteligente, simpático, solícito, bem – parecido, uma criança perfeita que toda mãe queria e gostaria ver sair da sua barriga.

Aos VINTE E TRÊS anos já era licenciado. Era advogado e, como o seu Catambor, também não era um advogado qualquer: era afamado, falava na rádio, discutia com os mais velhos na televisão e na rádio. Bom moço!

Aos sábados de manhã, no beco, sentados num tronco, o Chico e os amigos tornavam-se especialistas de em tudo. Sabiam de religião, de futebol, de política, de linguística, de saúde, até mesmo de quimbandaria e feitiçaria. Nessas ocasiões, a voz do Chico era “a voz de deus”.

 

As conversas iam e viam, até que alguém do grupo lembrou que devia ir ao mercado dos Correios comprar uma peça para a sua viatura. Logo O grupo se disponibilizou em acompanhá-lo.

Já no mercado, o Chico de súbito, diz aos amigos que aí (no mercado dos correios) também vendem peças de avião. O grupo riu-se dele e o ignorou.

Compraram a peça e antes mesmo de saírem do mercado, o Chico volta a insistir na tese de que ali também vendem peças de avião. Os amigos mais uma vez o ignoraram.

Indignado, o Chico pergunta a um “matucheiro” – Aqui vendem reactor de avião?

– Sim mô cota, vendemos. De boeng, hill ou antenove?

Os amigos imploraram ao Chico a parar com essa brincadeira, mesmo assim ele prossegue:

– Quero um de antenove.

Para o espanto dos cinco, o “matucheiro” apresenta-lhes o tal reactor de avião.

Quando o vendedor deu o preço, o Chico desculpou-se com muita elegância e finúria argumentando que só pretendia provar aos amigos que aí também vendem peças de avião.

Os matucheiros e o dono do reactor atiraram-se logo contra os cinco jovens da “baixa”.

No calor da discussão do compra, não compra, com voz de locutor o Chico diz bem alto, “sabes quem eu só?”.

Segundos depois dessa pergunta, todos assustaram com o barulho de uma tremenda bofetada que o Chico levou sem saberem o tamanho da mão e de onde terá saido.

O Chico desorientado começou a gritar: “tiro, tiro, me atingiram a queima roupa”. Três dos amigos conseguiram fugir, a peça do carro que compraram desapareceu e começou um festival de empurra-empurra e, num abrir e fechar de olhos, o Chico e o amigo já estavam amarrados a um pau e só já de cuecas.

O amigo gritava como cabrito com voz rouca: “mamawéé, mamawéé… e agora, Chico? E agora, Chico? Mamawééé, quem me mandou vir?” – A finúria e a bebedeira desapareceram sem deixar rasto neles.

Minutos depois, os três amigos regressaram, já com a polícia.

Os autores desse acto de violência foram presos em flagrante, acusados de lesão corporal e tentativa de burla já que o tal reactor de avião, afinal era um motor de um camião SCANIA 111.

Sairam do mercado dos Correios bem fufulados e mudos.

Antes de chegarem ao Camtambor, o Chico quebra o silêncio fúnebre da viagem de regresso: “O que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas”. A única resposta que se ouviu foi um muchocho torto “daqueles”!

Seguiram em silêncio e nunca mais ninguém viu os amigos do Chico sentados aos sábados naquele beco.

Não sei o que o Chico terá aprendido com a provocação aos matucheiros do mercado dos Correios, mas, tal como o amigo dele, eu também pergunto:

– E agora, Chico? 

 

JOSÉ OTCHINHELO

(03.07.2021)  

Data de Emissão: 03-07-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
E... TUDO O MÊS DE JUNHO NÃO LEVOU

E… TUDO O MÊS DE JUNHO NÃO LEVOU

 

A problemática da protecção da criança não é nova em Angola, em África e no resto do mundo.

O tema trabalho infantil continua na agenda dos governos. Leis e convenções internacionais continuam a ser criadas, actualizadas e a servir de esteio para a protecção dos direitos infantis.

Mesmo assim, o desleixo ou desinteresse de adultos que obrigam crianças a trabalhar, chocam, martelam sem piedade a sensibilidade de quem vê nas crianças a ponte entre o passado e o futuro.

Práticas como o casamento infantil, a excisão, o abuso e a violência sexual e física, continuam a ser uma realidade nesse mundo cada vez mais domesticado pelas tecnologias, mas incapaz de pôr fim à esses comportamentos que atiram para o contentor de lixo a dignidade das crianças vítimas de violência.

Ao nível das famílias a situação é mais grave, por ser lá onde maioritariamente esses crimes ocorrem. Mas é também nela onde o filho tem direito a ter mais comida no prato do que a filha, como se o tamanho do estómago dependesse do género, é no “lar doce lar”, onde pais decidem que é o rapaz que deve ir a escola, ao passo que a menina é atirada para as tarefas domésticas.

Mas, o sofrimento de muitas dessas crianças não termina aí, quando são violados os seus direitos, em muitos casos a imprensa revitimiza a própria criança, ou por lhes atribuir a maturidade de um matulão, ou por identificá-las com o nome, imagem, endereço ou objectos que facilmente pessoas conhecidas ficam a saber de quem se trata, gerando bullyng, em muitos casos.

 

Ainda assim, é importante que os jornalistam saibam que uma representação mediática com descaso ou excesso de proteccionismo pode provocar reacções sociais que desvalorizam ou supervalorizam as crianças. Vale aqui a regra: “nem 8, nem 80”.

O jornalismo define e redefine os padrões comportamentais sociais, logo, tem uma importância crucial na formação da opinião pública sobre a infância, e tudo devem fazer para não serem potenciais fontes de estereótipos e outro tipo de pré-julgamentos da infância. Mas, deixemos o jornalismo tratar das suas malambas!

Frases como “mais uma chuva, essa miúda já está pronta”, são ditas com a maior irresponsabilidade desde que me conheço como gente, mas nunca ouvi nenhuma constestação, nem da imprensa, nem das organizações femeninas, muito menos da entidade responsável pela protecção da criança, já que frases como essas servem de gatilho para pedofilia.

Por outro lado, não me lembro de ter ouvido alguma iniciativa para acabar com o fenómeno MANGA DE 10, e que tenha ecoado na sociedade.

Já que estamos a falar da criança, atiro uma última pedra ao charco. É importante que quem de direito saiba que a merenda escolar não só motiva, como melhora as capacidades intelectuais dos alunos. Mecham em tudo, menos na merenda escolar!

Como podem ver, muito ainda há por se destilar em prol do desenvolvimento integral da criança, por isso, espero que as discussões de temas sobre os direitos da criança não tenham ficado no mês de Junho!

JOSÉ OTCHINHELO

(29.06.2021)

Data de Emissão: 29-06-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
SILÊNCIO!
 

 SILÊNCIO!

O coração parecia que iria explodir, batia com toda a força que ainda lhe restara, o peito inflamado, tinha pouco espaço para respiração, ela estava em pânico, queria viver, mas sentia que, cada vez menos sentelhas de ar tinham acesso aos seus minúsculos pulmões para manté-la viva.

Ela estava assustada, não acreditava no que estava a acontecer, se questionava sobre onde estaria a mãe.

Naquele pouco tempo, vários pensamentos passaram pela sua cabeça, lembrava-se de todo o amor que sempre teve da mãe! Ainda que tentasse correr, de nada adiantava, ela estava cansada, não iria para muito longe. Para piorar a sua situação, não conhecia nenhum parente e nunca tinha ouvido a voz do pai, lutava sozinha para sobreviver apesar da pouca idade!

Foram horas de luta e agonia, a morte mordia os seus calcanhares, o cheiro que sentia estava longe de ser o habitual, para atrás ficaram as brincadeiras e o carinho da mãe! Já não se sentia protegida, no paraíso!

A paisagem tinha mudado, ninguém conseguia ouvir os seus gritos de agonia naquela fátidica manhã.

TRÊS dias antes, deixou de ouvir a mãe cantarolar nas primeiras horas de cada manhã, enquanto fazia as primeiras tarefas domésticas!

Tentava desesperadamente salvar a sua vida! Foi uma manhã de intenso turbilhão. Em alguns momentos pensava que o homem iria parar, mas ele prosseguia, não se importava com a sua dor, apenas queria consumar o acto, sem se importar com a pouca idede dela! Tão nova, tão criança, e já tinha percebido que, afinal existem homens selvagens!

 Ninguém imaginava que naquela manhã de sábado, ela estava sozinha, sob intenso sofrimento devido a maldade dos adultos, e lá estava ela, sozinha sem ninguém para a defender ou proteger. Com os olhos a arder chegou mesmo a se perguntar: onde estão as pessoas, porque ninguém me consegue ouvir?

Do outro lado, sua mãe estava imóvel, observando, sem dizer nada, enquanto o homem terminava o trabalho sujo. E antes mesmo que ela parace de respirar, imaginou o rosto da mãe, pensou nos irmãos, há como ela queria estar no colo da avó naquele momento!

 O impacto foi tão forte, que de nada adiantou os gritos e a luta para sobreviver, estava completamente indefesa, os pensamentos ficaram confusos, as forças se esgotavam aos poucos e em menos de TRINTA minutos… Silêncio!

Aquela bebé que se encontrava no ventre da mãe, deu o último suspiro, mais um aborto acabou de acontecer!

Que nome teria aquela bebé, como seria o seu rosto, qual seria a cor dos seus cabelos, que sonhos teria, seria uma médica, locutora de rádio, ou uma professora? Ninguém sabe, apenas sabemos que mais um ser foi descartado!

E agora, peço-vos silêncio! 

 

JOSÉ OTCHINHELO

  (28.08,2021)

 

Data de Emissão: 28-06-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 
NOS TORNAREMOS MELHORES PESSOAS NO FIM DA PANDEMIA?

CRÓNICA: NOS TORNAREMOS MELHORES PESSOAS NO FIM DA PANDEMIA?

 

EM Dezembro de 2019, estavámos ainda aos abraços e beijinhos, enquanto o “quintal” da China pegava fogo (com a Covid-19), com relatos a chegarem aos quatro cantos do mundo a dar conta de gente que caia nas ruas de Yuan, como se fossem moscas que apanharam um banho de petróleo iluminante. É claro que muito do que se ouviu, apesar da gravidade, não passava de fake news.

Como dizia, enquanto a China ardia, foi tanta a nossa ignorância que, acreditamos cegamente que a maldita doença nunca ultrapassaria a fronteira asiática. E sem que nos aprecebessemos ainda da gravidade do novo vírus, passamos a limpar tudo que é verdura, nas prateleiras e mercados informais, na certeza de que a nossa mengeleka, o nosso lombi, a nossa kisaca e outras folhas verdes, nos dariam o antídoto capaz de evitar o estrago que o novo Coronavírus fez na China, Europa e outras paragens do planeta vida.

Apesar dessa posição, não vou entrar no debate sobre a raça negra e a Covid-19, nem se as tais verduras evitaram o pior entre nós.

 

 

No entanto, foi bem no início da pandemia no nosso país, que surgiram muitos arautos, quimbandas, psicólogos (de ocasião), sociólogos e outros logos que se começou a pregar o surgimento de uma natureza humana mais humana, ou seja, nos tornaríamos melhores pessoas no fim da pandemia.

Ora, não vou falar aqui do que se passa na Síria e na Faixa de Gaza, não falarei dos vários floyds que perderam a vida às mãos da polícia americana, nem direi que o mundo deixou de ter tráfico humano e outras cevícias que atiram para lama a dignidade da pessoa humana e que acontece todos os dias nesse mundo a fora!

Quando ouço esse tipo de discurso, e olho para a realidade social, sinto pena de mim mesmo, os corruptos não se tornaram melhores pessoas, os vários Lussatys têm estado a aparecer na imprensa todas as semanas.

Os gananciosos não se tornaram melhores pessoas, estamos sempre a ouvir falar de mulheres que se engravidam para terem uma mesada garantida do pai da criança.

Os casais não se tornaram melhores pessoas, o número de divórcios e traições conjugais não param de subir.

A comunidade escolar não se tornou melhor, vimos provas escolares irem parar nas redes sociais, ou seja, até fomos um pouquinho domesticados no primeiro mês da pandemia, mas logo a seguir, o lado animal que há em nós e que nunca saíu de nós, voltou com muito mais força, a tal ponto que até a igreja fecha os olhos a pecados tão graves que o Diabo rivaliza com muitas dessas pessoas que vivem das aparências, e cuja a pandemia não foi suficiente para moldá-las e torná-las MELHOR!

 

JOSÉ OTCHINHELO

22.06.2021   

 

Data de Emissão: 22-06-2021 às 10:00
Género(s): Crônica
 

Relacionados